Este ano, o tema será “A vinda da família Real para o Brasil e seus impactos no ensino e pesquisa”.
Maiores informações, no site do evento.
É muito comum ouvir queixas de professores, do tipo: “essa turma é complicada, ninguém quer nada!”; “não sei o que fazer, ninguém se interessa, os alunos respondem com estupidez, nos tratam como seus empregados”. No final do bimestre, na hora da entrega dos resultados, é aquele festival de notas vermelhas e surge um outro discurso: “Eu dei os conteúdos, mas eles não aprenderam, fazer o quê? Não se comportaram, agora está aí o resultado.” Sem dúvida, estamos diante de um problema que é mais complexo do que parece: As teorias de moda, as “pedagogias” neoliberais de auto-ajuda afirmativa dos diretores e coordenadores de escolas, a família dos alunos, geralmente, colocam a culpa nos professores. Afinal de contas de 35 alunos apenas 5 conseguirem nota azul, é sinal de que o professor não ensinou direito. Os professores, por sua vez, defendem que dão suas aulas, transmitem os conteúdos, mas não encontram apoio nas instituições em que trabalham, as famílias não acompanham o estudo dos alunos, e estes, por sua vez, não querem estudar, e não valorizam o conhecimento.
A complexidade deste tema passa por alguns aspectos que, muitas vezes, passam desapercebidos, e têm a ver com a própria característica da educação, de ser algo tão presente em nossas vidas, desde a infância, que acaba se naturalizando. Outro aspecto importante é a formação dos professores e a sua relação com os saberes que ensinam.
A escola se apresenta como instituição aberta, democrática, e a profissão docente acaba sendo terreno onde todos podem pisar. Todos opinam sobre como o professor deve agir, como deve ministrar suas aulas, avaliar, e de uma forma bastante invasiva, como não ousam fazer com o médico, o dentista, o advogado, o empresário, e até mesmo com aqueles que deveriam opinar de forma mais incisiva, como por exemplo os vereadores ou o prefeito. Todos acham que sabem como é ser professor, porque todos foram alunos. Aliás, ainda é comum ver engenheiros ensinando matemática, médicos ensinando biologia, advogados ensinando história.
Ainda hoje vivemos a predominância do paradigma da racionalidade técnica na formação inicial de professores, que se caracteriza por um conjunto de saberes e práticas que precisam ser observadas e reproduzidas ou aplicadas. Neste modelo o professor se apresenta como um instrumento de reprodução de saberes, um facilitador de conhecimentos científicos sagrados que não podem, em hipótese alguma, ser maculados. Dessa forma é negada a subjetividade do professor. A escola seria, para ele, o lugar da transmissão, e o livro didático, na maioria das vezes, a principal, senão a única fonte historiográfica utilizada por professores e alunos. Por isso se faz urgente uma maior reflexão, por parte dos professores, sobre a sua relação com os seus saberes e os saberes que ensinam.
Durante muito tempo a formação inicial de professores na escola normal, baseada neste paradigma tecnicista, incorporou vários símbolos do regime militar, como o uniforme com um galão no ombro indicando a série da normalista, o hino (que nunca poderia ser desrespeitado com manifestações como aplausos, por exemplo), a bandeira, a disciplina nos desfiles com trajes de gala, tudo isso mesmo depois do fim da ditadura, na década de 1980. As professorandas aprendiam como se portar, como apagar o quadro adequadamente (deslizando o apagador sempre em sentido vertical, nunca horizontal), e uma série de outras regras que deveriam ser seguidas e aplicadas criteriosamente.
Como reagir então ao fato de, mesmo tendo aplicado todas as técnicas de transmissão do conhecimento acadêmico, com total competência, o aluno não consegue realizar uma boa prova? Muitas vezes os professores não conseguem responder a esta pergunta de outra forma senão aquelas citadas no início deste texto.
Diante desta complexidade, é fundamental que haja, por parte dos cursos de formação de professores, das administrações escolares e, principalmente, do próprio professor, que é necessária a tomada de consciência de que o professor é um profissional intelectual, que vai além de um mero reprodutor de conteúdos externos e que, no interior da escola, na sua prática docente, com sua bagagem cultural (livros, filmes, músicas, debates...), também é produtor de conhecimento. Assumir esta postura resolve em parte os problemas que o afligem, pois fortalece a sua profissionalização, transforma a sua prática cotidiana com os alunos em algo significativo, tornando os próprios conteúdos ensinados significantes e, conseqüentemente, apreensíveis.
Não estamos falando, portanto de culpados ou de vítimas, mas da necessidade de uma maior reflexão sobre nossos saberes e práticas.
Para saber mais:
ANDRADE, Everardo Paiva de. Mais História e Ainda Mais Docência: Por uma epistemologia da prática docente no ensino de história. Campos dos Goytacazes, RJ. Ed. FAFIC – Faculdade de Filosofia de Campos, 2002;
__________________. Um Trem Rumo às Estrelas: A Oficina de Formação Docente Para o Ensino de História (O Curso de História da FAFIC). Tese de Doutorado defendida no programa de pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. 2006; disponível em: http://www.bdtd.ndc.uff.br/tde_arquivos/2/TDE-2007-11-27T131835Z-1111/Publico/Tese-Everardo%20Andrade.pdf
BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. (Col. Docência em Formação). São Paulo, Cortez, 2004
KARNAL, L. (Org.). História na sala de aula - Conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2003. v. 1. 216 p.
MONTEIRO, Ana Maria Ferreira da Costa. Professores de História: entre saberes e práticas. Rio de Janeiro, Edito ra Mauad, 2007;
___________________. A história ensinada: saber escolar e saberes docentes em narrativas da história escolar. Disponível em: http://www.anpuh.uepg.br/xxiii-simposio/anais/textos/ANA%20MARIA%20MONTEIRO.pdf
"Painel Diário
Da Redação
Ontem teve marmelada...
Se na canção popular existe a pergunta “Mas o palhaço, o que é?”, em Campos, diante do circo armado, a resposta deveria ser “ladrão do dinheiro público do município”. O espetáculo realmente ganhou as ruas para defender corruptos, homens públicos acusados de desvio de verbas, enriquecimento ilícito e sonegadores de impostos. Mas quem tem bens bloqueados pela Justiça e volta ao poder, só deixa claro que o crime compensa... em Campos.
Lamentável
Temos apenas que lamentar, um município como Campos possuir profissionais que se prestam ao papel de ganhar as ruas para defender a corrupção escancarada instalada na prefeitura municipal. Palhaçada, com certeza, jornalistas sérios se intitularem juízes, quando deveriam zelar pela verdade."
"Em alta Manifestações contra políticos corruptos que retornam ao poder. Em baixa Profissionais liberais defenderem políticos acusados de roubo."
Em 30 de janeiro de 1930 foi convocada uma audiência na Câmara Municipal para a organização das mesas eleitorais, e também para investigar uma série de listas com assinaturas suspeitas, indicando nomes de mesários para o pleito. Após 24 horas de análises, os peritos apresentaram alguns resultados alarmantes, como por exemplo, o caso do eleitor José Lopes de Oliveira e Souza, que aparecia indicado, sob o nº 81 como mesário para a 3ª seção, quando isto não poderia ser verdadeiro, já que este eleitor havia mudado seu nome para José Lopes de Oliveira Lyrio, e a assinatura apresentada não tinha a sua letra. Ou então o caso do eleitor
ESTÊVÃO ARMONDE, que não pode ser o mesmo eleitor alistado Estevam Armond, ora residente em Itaperuna, onde exerce as funções de Escrivão da Collectoria Federal, o que deixa evidente o propósito de falsificação argüida, porquanto não é possível admittir-se que esse eleitor que aqui foi jornalista, não saiba escrever seu próprio nome[2].
O jornalista Octacílio Ramalho atribuiu a fraude aos guaranistas que, “assanhados com o malabarismo do seu chefe junto aos próceres da política federal, [acabam por deixar] à mostra a calva dessa gente que quer fingir prestígio eleitoral através da fraude mais deslavada que se póde conceber”[3].
Aproximava-se a data das eleições de 1º de março, e os candidatos que se apresentavam como favoritos no 2º distrito eleitoral do estado (região de Campos), segundo a Folha, eram o Dr. Thiers Cardoso, pelo PRF, ex-deputado estadual com várias legislaturas, e o Dr. João Guimarães, apresentando-se inicialmente como deputado “extra-chapas”, ex-deputado Federal, responsável pela construção do edifício dos Correios e Telégrafos.
Enquanto isso surgia na imprensa a promessa do governo estadual de mais três novos bondes para a cidade, ainda antes do carnaval, enquanto, a 25 de fevereiro reuniam-se as lideranças locais do PRF, a fim de acertar os últimos preparativos para as eleições. Presidida por Américo Vianna, presidente da Câmara Municipal, e Álvaro Neves, proprietário de A Gazeta, a reunião tinha o objetivo de fechar, de forma coesa, os esforços em torno da candidatura Júlio Prestes – Vital Soares. Compuseram a mesa o deputado Thiers Cardoso, Pereira Nunes, ex-prefeito, Attilano Chrysostomo de Oliveira, proprietário da usina Mineiros, Amaro de Carvalho, presidente da Associação Comercial e o dr. Jayme Landim, deputado estadual. Além destes estavam presentes os chefes políticos de 16 juntas distritais do município, entre eles o capitão Joaquim Ramos, chefe político do 7º distrito, que em nome das juntas ali representadas, proferiu o seguinte discurso:
Responsáveis que somos pela direcção da política situacionista nos districtos ruraes deste município, aproveitamos a opportunidade desta reunião para significar, de público, o nosso apoio a orientação que ao P.R.F. local vêm imprimindo os drs. Álvaro Neves, Pereira Nunes e Américo Vianna, com a collaboração efficiente do illustre deputado Thiers Cardoso, tendo por objectivo assegurar nas urnas livres, no pleito de 1º de março próximo, a victoria dos candidatos pela Comissão Executiva do P.R.F. recomendados aos suffragios eleitoraes.[4]
Das juntas distritais em que era dividido o município, apenas duas (a primeira e a segunda), localizavam-se na cidade. As demais se espalhavam por sua vasta zona rural, e eram controladas, cada qual pelo seu “chefe político”, ou seja, o seu coronel, que cuidava em arrebanhar o maior número possível de eleitores, de acordo com as orientações recebidas da Comissão Executiva do Partido Republicano Fluminense. Porém, em 1930, havia um certo temor de que algo fugisse ao controle do partido, tanto que, na circular enviada pelo presidente do estado e do PRF, Manoel Duarte, havia o apelo a todos os correligionários para que
se esforcem quanto puderem, por si mesmo e junto de seus companheiros, no sentido de obterem o máximo comparecimento de eleitores às urnas. NÃO SE PODE PERDER UM VOTO. É o prestígio do Partido que está em jogo para darmos uma irrefutável demonstração da nossa pujança política em cada município.
Estamos certos do ardor partidário do prezado amigo, e ficamos seguros de que o pleito próximo será grandemente concorrido, proporcionando significativa victoria aos nossos candidatos.
A CHAPA E SÓ A CHAPA DEVERÁ SER VOTADA. UM VOTO DESVIADO SERÁ UM VOTO CONTRA.
No Partido Republicano Fluminense se confia que cada correligionário cumprirá, lealmente, o seu dever, para a grandeza do Partido e segurança das situações locaes. Saudações. — MANOEL DUARTE.[5]
Em 1º de março de 1930 realizaram-se, então, as eleições federais, tendo ocorrido em Campos de forma pacífica, ao contrário do que se noticiava sobre o pleito em outras regiões do país, onde foram constantes os choques sangrentos entre as facções rivais que disputavam a vitória nas urnas. Nenhum episódio de violência foi registrado no segundo distrito eleitoral do estado do Rio de Janeiro.
Publicados na Folha do Commercio em 14 de março, os resultados finais das eleições confirmaram, no estado do Rio, a vitória da chapa Júlio Prestes – Vital Soares. No tocante às vagas da câmara federal, os seis candidatos mais votados foram eleitos pelo 2º distrito, figurando entre os dez primeiros sete representantes desta região, sendo João Guimarães, da Aliança Liberal, o candidato com o maior número de votos do pleito, seguido por Thiers Cardoso e Arnaldo Tavares, ambos do PRF. Outro dado relevante foi o desempenho eleitoral do candidato Luís Guaraná, que obteve 19.812 votos, tornando-se entre os candidatos “avulsos”, o que alcançou maior número de votos, garantindo assim o nono lugar em todo território fluminense.
O gráfico a seguir demonstra os resultados percentuais atingidos pelos partidos nos três distritos fluminenses, sendo possível observar, além da significativa vantagem do PRF em todos os distritos, que o melhor desempenho, tanto do PRF quanto da Aliança Liberal, ocorreu no 2º distrito, que abrangia o município de Campos.
Eram comuns, durante a primeira república, questões envolvendo violência e fraudes eleitorais através do fenômeno conhecido por “voto de cabresto”, típico da estrutura coronelista que predominava na organização política brasileira. Nas eleições de 1º de março no município de Campos, afora o clima de tranqüilidade em que transcorreu, o desaparecimento do livro de notas onde deveriam ser transcritas as atas eleitorais do cartório da 11ª junta distrital impediu a realização do pleito neste local, fato que desencadeou suspeitas de fraudes envolvendo o nome do candidato Luis Guaraná, ocupando as páginas do noticiário da cidade num período posterior às eleições. De acordo com os depoimentos colhidos pelo chefe de polícia, o coronel Galeno Camargo, o escrivão Manoel de Abreu Sobrinho desapareceu com o livro após ter votado, junto com outros eleitores do 11º distrito, na 4ª seção eleitoral, aparecendo seis dias depois, na companhia de Luís Guaraná e Valério Barroso, sendo forçado por ambos a registrar no tal livro do cartório os resultados de uma suposta eleição, forjada na Usina Cupim. Porém, diante das proporções tomadas pelo caso, Manoel de Abreu Sobrinho tornou a desaparecer com o livro, revelando os boatos de que este se hospedou na casa de uma irmã de Luis Guaraná, no Rio de Janeiro. Na seqüência dos acontecimentos, os jornais pesquisados não mais apresentaram notícias do caso, no entanto, revelaram a possível continuidade das manobras políticas que marcaram o cenário eleitoral da primeira república.
O resultado das eleições no município puderam mostrar parte das forças que operavam os quadros políticos na região. Embora o sr. João Guimarães, candidato da Aliança Liberal, através de sua expressiva votação, pudesse representar, aparentemente, uma renovação dentro dos quadros conservadores da política fluminense, a sua vitória não chegava a incomodar os representantes do situacionismo no estado, que chegaram inclusive a indicar o seu nome na propaganda política do partido. Os campistas, saudosos de um tempo em que os nilistas ocupavam a direção do partido, depositaram na figura do dr. Guimarães as expectativas de mudanças na política federal que trariam os tão esperados investimentos capazes de tirar o município da situação de abandono em que se encontrava. Da mesma forma, sua eleição mostrou a tolerância do PRF no sentido de ter sido o próprio partido, responsável em parte, por seu sucesso nas eleições, já que sendo o nilismo uma dissidência do Partido Republicano Fluminense, e havendo severas críticas por parte de seus setores mais progressistas à figura do então presidente do estado Manoel Duarte, seu nome aparecia também como uma alternativa viável. No entanto essa reaproximação com o situacionismo decepcionou aqueles que acreditavam na política oposicionista levantada por Nilo Peçanha.
Por fim, Luis Guaraná, o outro candidato que, de certa forma, poderia incorporar as tendências de oposição, tendo inclusive se lançado nas eleições como candidato sem legenda, avulso, tornara-se alvo de profundas críticas dos setores progressistas da sociedade campista, principalmente depois de suas manobras em relação à política municipal junto ao então prefeito Luiz Sobral, quando reorganizaram o Partido Municipal, e também devido ao seu envolvimento em fraudes na composição das mesas eleitorais, bem como no resultado das eleições. Sendo assim, o quadro final das eleições de 1930 criou no município de Campos uma aura de descrença quanto às possibilidades de melhores dias.
Diante desse “vazio de poder”, fundamentava-se um terreno fértil para o surgimento de outras alternativas políticas, capazes de satisfazer os anseios de modernização das instituições.
[1] GRAVÍSSIMAS Ocorrências na prefeitura. Folha do Commercio, Campos, 24 de jan. 1930.
[2] FRACASSOU o assalto dos falsificadores às mezas eleitoraes. Folha do Commercio, Campos dos Goytacazes, 01 de fev. 1930. Momento Político.
[3] RAMALHO, Octacílio. TIRO pela culatra. Folha do Commercio, Campos dos Goytacazes, 2 de fev. 1930.
[4] O PLEITO de 1º de março. Folha do Commercio, Campos, 26 de fev. 1930.
[5] Id. Ibid.